a cidade x a cidade do poeta
“Feliz ou infelizmente, ainda não conseguiram soterrar de todo a minha cidade. Vou andando pela cidade nova, pela cidade desconhecida, pela cidade que não me quer e eu não entendo, quando de repente, entre dois prédios hostis, esquecida por enquanto das autoridades e dos zangões do lucro imobiliário, surge, intacta e doce, a casa de Maria. Dói também a casa de Maria, mas é uma dor que conheço, uma dor íntima e amiga. Não digo nada a ninguém, disfarço o espanto da minha descoberta, para não chamar a atenção dos empreiteiros de demolições. Ah, se eles, os empreiteiros, soubessem! Se eles soubessem que aqui e ali repontam traços emocionantes da minha Belo Horizonte em ruínas! Se eles soubessem que aqui e ali vou encontrando os passadiços que me permitem cruzar o abismo do tempo! Eles viriam com as suas picaretas, com suas marretas estúpidas, com as suas ideias de progresso, eles derrubariam sem dó as minhas últimas paredes, arrancariam os meus últimos portões, os marcos das janelas que me impressionavam, as escadas de mármore por onde descia Suzana, as grades do colégio, as árvores e as pedras que ficaram, eles iriam aos alicerces para removê-los, para que não restasse nada, para que eu ficasse para sempre sem cidade natal, sem passado, sem música.
(…)
Chegou a minha vez de demolir. Derrubo tudo que eles edificaram e vou reconstruindo devagar a cidade antiga. Às pessoas velhas devolvo de novo a mocidade; às pessoas mortas devolvo o sopro da vida. Aí telefono para o Hélio, para o Otto, para o Fernando; e vamos para a praça da Liberdade puxar angústia, isto é, descer ao fundo escuro do poço, onde se acham as máscaras abomináveis da solidão, do amor e da morte.”
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Recorte de Belo Horizonte
Paulo Mendes Campos em O mais estranho dos países



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