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12/08/2010 / videcampos

Como iniciar uma carta de amor – Parte I

 
 
 
 

              “Para começar, explicava Teresa, deve evitar-se qualquer menção de trivialidades quotidianas. É errado começar uma carta de amor assim: ‘Querida Alexandra. Estava a pôr o lixo no caixote quando me lembrei do teu sorriso encantador’.

           - Grande estúpida, achas que eu ia falar-lhe do lixo?

           Teresa teve vontade de responder que sim, que o lixo era o mote mais apropriado para uma parva daquelas. Mas não ia adiantar nada. Só conseguiria zangá-lo, afastá-lo, e já era tão bom que ele a tivesse escolhido a ela para cúmplice suprema.

            - Teresinha, fofa, não digas a ninguém mas eu quero escrever uma carta de amor à Alexandra. Tenho de lhe dizer. E não consigo. Não sei como é que se diz. Ajudas-me?

            Teresa pôs-se então a desenvolver. As adolescentes são admiravelmente imunes aos dotes domésticos de um rapaz, dizia ela. Isso não as seduz. Nesta idade, elas ainda mantêm a plena maturidade da infância; prendem-se apenas ao essencial.

             - A Alexandra não é criança nenhuma.

             - Não é isso que estou a dizer, burro. Antes fosse.

             - O quê?

             - Nada. Vê se percebes. As raparigas não gostam de rapazes bonzinhos.

             O que lhes interessa avaliar num namorado é a qualidade da exposição (‘ou seja’, dizia ‘se ele vai andar de mão dada na rua ou não’), a quantidade de ar que ele consegue guardar no peito (‘ou seja’, dizia ‘se ele é capaz de fazer com que um só beijo dure cerca de uma hora’), a variedade da conversação (‘ou seja’, dizia ‘se ele sabe falar de outras coisas para além de motas, futebol e rock’) e a sensibilidade do coração (‘ou seja’, dizia ‘se ele é capaz de a acompanhar ao dentista e ao supermercado ou se apenas está disponível para festas e cinemas’).

             - É só isto o que lhes interessa, e já não é pouco. Entendido?

             João fazia covinhas na cara quando sorria assim, com um jeito malandro.

             - Entendido, senhora doutora. E a beleza, não é fundamental? A minha cara linda, não serve para nada?

             - A beleza, meu filho, para as raparigas, é uma coisa espiritual. Sem explicação nem medida. É por isso que é muito difícil encontrar duas raparigas com a mesma opinião sobre a beleza de um rapaz. As mulheres não são todas iguais, como os homens. Até são capazes de gostar de um monstro como tu.

              - O quê?

              - Nada.”

 

              (…)

 

________________________________________________________________

Teresa ensina a João como escrever uma carta de amor

em A instrução dos amantes de Inês Pedrosa.

 

Mais: Como iniciar uma carta de amor – Parte II

         O rascunho de uma carta de amor

 

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